criação de ring neck

Olá, leitores.

Esse título já deve trazer um monte de sensações para os veteranos e para os novatos, pois, será que esse mercado de Ring Neck é isso tudo mesmo? Bom, eu posso dizer que sim e que não. Por isso, vou começar falando sobre o histórico que eu, mesmo com poucos anos de experiência prática, conheci durante esse tempo que estou inserido nele e convivendo com amigos de criação. Obviamente, nem tudo pode estar cronologicamente apresentado, mas não vamos focar nisso, o conteúdo é mais interessante.


Como será que tudo isso começou?

O mercado de Ring Neck no Brasil provavelmente teve seu início com as primeiras importações, lá pela década de 90. Nesse período, a preocupação com doenças, ração das arábias, 10 posturas por temporada ainda não existiam tanto quanto hoje.

Por ser uma atividade majoritariamente amadora (no sentido de ser mais um hobby que um negócio), a criação dessa espécie evoluiu semelhante a todos os exóticos que chegaram por aqui: com criadores apaixonados fazendo um trabalho aqui e ali, mas sem muito contato com técnicas apuradas pelo próprio fato de não ser um mundo tão globalizado e tecnológico como é hoje, onde a gente aprende o que quiser a qualquer hora e qualquer lugar, quase que de graça. Acredito que em meados dos anos 2010 foi quando a criação tomou rumos mais interessante e profissionais. Não só a criação de Ring Neck, mas de psitacídeos exóticos em geral. Nesse período, os criadores conhecidos de hoje – que frequentam as lives, as redes sociais com mais relevância – devem ter surgido na sua maioria.


A criação moderna

Então, veio o período da pandemia. Realmente uma calamidade em nosso país, mas que, por outro lado, mostrou a capacidade de muitos em impulsionar seu negócio e outros tantos que desacreditaram do potencial econômico dessa ave e ficaram para trás. Como não tocar no nome do Gil (se me permitem)? O Rei das Aves (nome comercial criado pelo seu time) iniciou um trabalho que, você gostando ou não, mudou o panorama da criação de Ring Neck no país. Não o conheço, mas isso que ele fez merece destaque.

Eu, particularmente, divido a criação em duas etapas: a criação tradicional, que já mencionei aqui, e a criação “moderna”. Essa, por sua vez, foi consagrada com a chegada de fábricas de ração de qualidade, informações de criadores estrangeiros, evolução nos conhecimentos de genética, manejo mais racional e uma atenção maior ao bem-estar da ave. O termo “enriquecimento ambiental” não veio por acaso, por exemplo. Tudo isso entre os anos de 2010 pra cá, com o auge no período da pandemia e após.

Esse período moderno, temos que admitir, existe muito graças aos cursos que o próprio Gil implementou e que colocou milhares de novos criadores no mercado. Eu entendo que ele revolucionou o mercado de forma positiva. A meu ver, também, a chegada de novos criadores dividiu o mercado em dois: criação de psitacídeos e criação de Ring Neck.

Parece estranho falar assim, mas quem tiver um tempo para refletir, vai perceber que as “regras” e o sentido da criação de Ring Neck é totalmente diferente da criação da grande maioria dos outros psitacídeos exóticos. Não vou nem comentar sobre os preços e da oferta x demanda de algumas mutações, que, lá pelos anos de 2021/22 eram vendidas ainda no ovo a peso de ouro. O mercado era avassalador.


Mas nem tudo são flores

Entendo que o apelo comercial para vendermos produtos no mercado sempre é um pouco exagerado, mas, às vezes, tem alguns pontos que precisam ser explicados melhor, para evitar frustrações. Talvez isso desanime alguns possíveis novos entrantes, mas eu gostaria de destacar algumas verdades sobre a criação que são importantes de serem levadas em conta na hora de alguém decidir entrar na atividade:

1 A criação de Ring Neck é uma atividade rentável, não muito complexa e que exige investimento relativamente baixo, porém, de retorno proporcional ao que se investe:

não adianta olhar para um plantel de cleartails ou de esmeraldas opalinos que podem render mais de 100mil por ano fácil e pensar que vai chegar lá em pouco tempo se você investir em 4 casais de azuis filhotes hoje, na sua garagem, pra mexer 30min por dia. Sem mais investimento de dinheiro próprio ano a ano e contando apenas com o resultado das vendas de filhotes dessas aves, demorará talvez uma década. Por isso, não adianta: quem investe pesado, colhe mais e melhor. E lá na frente, ninguém sabe como estarão os preços dessas aves, e, com certeza, não serão iguais a hoje. É a lei universal da oferta x demanda.

2 Não se pode fazer planos lineares do tipo “você terá oito filhotes por ano”:

a criação de aves pode ser simples, mas a reprodução não tolera muitas mudanças climáticas drásticas ou manejo inadequado nessa fase. Na prática, não depende só de sua dedicação. É muito comum casais adultos não terem regularidade nas temporadas. Pode ser que um casal esse ano faça três posturas de 5 filhotes e ano que vem nem apronte. Isso não quer dizer que, na média, não se consiga uma reprodução aceitável, mas não dá pra pensar em algo linear, numa receita fixa anual. Por isso, leve a criação como uma empresa e tenha caixa para manter e reinvestir (vou fazer um tópico só de organização financeira em breve).

3 Ring Neck é adulto lá para seus 5 anos e antes disso reprodução bem estruturada não é garantia:

vejo muito falatório sobre a pessoa iniciar a criação e no ano seguinte recuperar o investimento. Lógico que pode acontecer, mas, pelos relatos da maioria dos criadores que converso, as chances de um casal de Ring Neck reproduzir no seu primeiro ano são em torno de 10%. No segundo ano chega aos seus 50%, no terceiro ano, vejo que é cerca de 90%.

Daí já dá pra entender que o retorno, via de regra, não é tão rápido. Minha experiência é que no ano 01 foi zero reprodução, ano 02 foi 50%, ano 03, 100%. Recuperar investimento e realmente ter lucro, no meu caso, só na quarta temporada, pois o investimento de capital próprio veio ano após ano também. E qual negócio não é assim?

Por isso levo como super normal esse prazo de retorno, e ainda acho melhor que a maioria dos investimentos (na matéria sobre negócios vamos simular vários investimentos e verá como Ring Neck ganha de muitos).

4 Criar é fácil, difícil é vender:

sei que essa frase gera muita rejeição ao meu pensamento, mas parto do princípio que nem todas as cidades, nem todos os estados e nem todos os criadores estão preparados para realizar um processo de marketing, divulgação e logística suficientes para ter uma demanda eficiente e conseguirem negociar suas aves a preço justo. E, por esse motivo, é que muitas vezes vemos preços muito abaixo da realidade nacional de certas mutações, o que julgo péssimo.

A verdade é que é um mercado como qualquer outro e a pessoa que se propuser a entrar nele deve ter consciência de que precisa fazer diferente para se destacar. Esse não é um ponto negativo, pois se a maioria dos criadores não conseguem se destacar, então há um enorme espaço para quem se propuser a fazer diferente. Como sugestão: criar com qualidade, estudar redes sociais, ter uma boa reputação, participar de eventos são um ótimo início.

5 Não é preciso focar em 3 posturas ou 15 filhotes por casal por ano, você nem sabe se vai ter mercado pra tanto bicho:

esse tópico complementa o anterior no sentido de que alguns criadores não deveriam se preocupar incansavelmente com dezenas de posturas e centenas de filhotes. Sei muito bem que é ótimo para o bolso ter muito filhote, mas há regiões onde essa produção não tem pra onde ir (pelos pontos que mencionei anteriormente) e vai ser necessário reduzir muito os preços ou até ficar com aves por anos. Prefira definir certas prioridades, como ter uma quantidade de filhotes que você consiga vender com 1 a 2 anos sem agonia. E aí entro no próximo tópico…

6 Você não vai vender tudo nos primeiros dias, e tá tudo bem:

a realidade do mercado de Ring Neck não é essa. E aqui a gente precisa realmente separar os vendedores dos criadores, pois a grande maioria das pessoas que entraram na criação nos últimos anos tiveram a visão de que a venda acontece automaticamente e que fila de espera pelas suas aves é algo normal, que seu whatsapp vai bombar de tanta gente querendo ave e que é só postar uma foto num grupo que está vendido. Não é! Hoje, estamos atravessando um momento ruim da economia e isso reflete nas aves. Qualquer criador mais antigo sabe que é normal vender aves só no primeiro ou segundo ano de vida. Por isso, mais uma vez é importante criar pouco e criar bem. Quanto mais bicho no mercado, mais barato fica. É um fato!

Mas então, esse mercado de Ring Neck é ou não um bom negócio?

Primeiramente, digo que sim. É um ótimo negócio se você já cria, ou pode criar, mutações como cleartails, opalinos, esmeraldas. Você não precisa de muitos casais dessas mutações para dar certo, e tendo um bom mercado ao redor você cresce e recupera seu investimento em alguns anos, já que a demanda por essas aves é altíssima hoje. Se não der para ter aves tão valorizadas, montar casais de azuis, verdes, lutinos e fazer pets é um dos melhores negócios para quem pode investir pouco. Porém, é preciso dedicação e técnica, pois no período de reprodução você estará ligado quase que 24h. Por outro lado, é nesse tipo de criação que se tem as maiores chances de ter mais de uma postura com facilidade. E, caso consiga um bom mercado, o retorno é mais rápido, pois o Pet custa mais que uma ave convencional.

Se o investimento não é tão arrojado e nem tão modesto, trabalhar com violetas, pallids, Arlequins recessivo, Malva e outras combinações intermediárias te dará uma maior segurança no quesito oferta x demanda (pois ainda são mutações menos comuns), principalmente para quem não tem tempo ou condições de lidar com pets. Enfim, existem inúmeras oportunidades para se destacar no mercado de ring neck do Brasil atualmente.


Resumindo:

Se você é um criador que tem consciência da necessidade de qualidade de vida que as aves precisam, fornece uma alimentação e um manejo pensando no bem estar, está mais preocupado com a eficiência da reprodução e não tanto com a quantidade de posturas e filhotes que pode vender, quer estudar e se aprofundar num manejo que vai além do básico e com fundamentos científicos, entende que a modernidade exige que a venda seja bem executada, sabe que vai precisar de uma logística de entregas terrestres e até aéreas, quer e consegue ser relativamente eficiente no seu marketing e (o mais importante) dá tempo das coisas irem acontecendo normalmente sem atropelos, então você terá muito sucesso com a criação.

Ser persistente diante das dificuldades será o diferencial. Lembre que, no Brasil, apenas 5% das empresas conseguem chegar aos 10 anos. Na criação, não é diferente, pode acreditar. Para chegar até lá, é preciso ser e fazer diferente. Olhe quem chegou, olhe quem tem 10, 15, 20 anos na atividade e veja que eles não são super-heróis, mas são pessoas que fizeram diferente, que apostaram quando a maioria desacreditou e que tiveram o sucesso. O mercado de Ring Neck é algo fascinante, vale a pena conhecer.

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