Olá, leitores. Conhecer suas aves, sua cidade, sua região geográfica, a posição do criatório e vários outros aspectos relacionados à criação em si são seu melhor curso de criação de psitacídeos. Isso porque as outras questões (reprodução, alimentação, tamanho de ninhos, de gaiolas) trazem consigo certa generalização, pois muito do conhecimento sobre esses temas se aplica a praticamente todos os criadores com ajustes pontuais.
Já as questões relacionadas ao local onde fica seu plantel já são bem mais carregadas de individualidade. Mesmo criações na mesma cidade, no mesmo bairro, sentirão de maneiras diferentes as mudanças de clima, de estações do ano, de quantidade de alimento, tipo de gaiola, altura e posicionamento de gaiolas, etc.
Acompanhar o clima é fundamental
Sabemos que a extensa maioria das espécies que criamos são sazonais (reproduzem em determinadas épocas do ano somente). Mas você já reparou como a temporada de cria de seu criatório é muito diferente da reprodução do seu colega criador que mora em outro estado?
Isso porque existe uma faixa média de dias/meses onde as aves entrarão em reprodução, o que varia conforme alguns estímulos. Um deles, talvez o mais relevante, é a questão do fotoperíodo (que você pode saber mais clicando aqui). Um bom exemplo é que no Sul do país, há uma tendência de que a temporada comece em épocas relativamente semelhantes a cada ano. Já no Nordeste, é comum a diferença entre início e final ser até de meses, por conta da pouca variabilidade de fotoperíodo e dependência de outros fatores relacionados.
Sendo assim, o criador tem que aprender como é o comportamento do clima da sua cidade. O que recomendo é acompanhar dados em sites como https://clima.inmet.gov.br/GraficosClimatologicos. Esse é apenas um dos exemplos. Nesse site totalmente gratuito, você pode acompanhar as médias históricas te temperatura, fotoperíodo, umidade do ar, chuva acumulada. Vale a pena o estudo desse conteúdo.
Mas o criador pode dizer: “ahh, mas eu tenho 50 anos de criação nessa casa e nessa cidade, sei até quantos dias chovem no mês…”. Até entendo que o conhecimento adquirido nos anos de criação é uma ferramenta indispensável, porém, pessoal, a tecnologia está aí para ajudar. Quem estuda sai na frente ou ultrapassa quem está ainda pensando, por exemplo, se extrusada realmente é bom (sugiro ler esse artigo aqui e tirar suas próprias conclusões).


Nesses dois exemplos acima, vemos que a precipitação (quantidade de chuva que ocorre mensalmente) nessas cidades é totalmente diferente. Veja que em Maceió, o pico de chuva ocorre em maio e junho, sendo que em Florianópolis junho é o mês de frio e seca. Só por esse motivo eu tenho que aceitar que a criação não é igual nesses dois lugares. Essa é uma das razões porque digo que estudar é o melhor curso de criação de psitacídeos.
Conhecendo sua casa
É obvio que todo mundo conhece a sua, mas será que seu criatório foi planejado pensando nas aves ou pensando em como alocar tudo que você quer comprar no espaço que tem?
Eu entendo que muitos criadores não têm o mundo ideal (nem eu), onde o criatório é do jeito que a gente sonha. Na verdade, que atire a primeira pedra quem não perde um ou dois minutos todo dia pensando como seria melhor se essa parede fosse meio metro mais para a esquerda ou que essa laje poderia ser mais alta 30cm… essa é a vida real, e temos que aceitar.
E melhor que isso! Não só aceitar, mas jogar conforme as cartas que temos! A criação de psitacídeos só evolui se também acompanharmos essa evolução.
O criador que já tem tudo instalado, realmente vai ter que limitar suas ações, mas quem vai reformar ou vai iniciar, precisa entender alguns pontos. Primeiro, será que a posição das gaiolas vai favorecer o manejo e, ao mesmo tempo, dar conforto às aves?
Conheci um colega que tinha ótimo manejo sanitário e alimentar, mas as aves deles estavam dispostas em um corredor muito pequeno. Isso fazia com que ele tivesse que se apertar entre as gaiolas. A cada passada por um dos lados, ele batia as costas nas caixas-ninho do lado contrário, fazendo com que as fêmeas constantemente se debatessem. Esse mesmo criador, certa vez, me falou que seus ring necks quebravam muitos ovos e ele julgava ser tamanho dos ninhos inadequados, mas, na verdade, ele que não tinha espaço para criar com tanta gaiola.
Em outro exemplo, o criador queria economizar com gaiolas. Queria colocar gaiolas de 1,20m para ring necks, ao invés das recomendações que teve dos amigos de usar 1,50m. Isso para ter mais espaço no manejo. Ele acabou economizando cerca de 1000 reais e ganhou mais de 1 metro de corredor, onde nós passávamos facilmente entre as gaiolas. O que ocorreu depois foi que ele percebeu que não precisava de 1m, porque só ele entrava no galpão. Então, está trocando as 10 gaiolas aos poucos.
E sobre a posição das gaiolas e exposição ao sol? Aqui um ponto extremamente sensível, já que pouco criador quer aceitar que cria em local inadequado (mas eu falo mesmo assim).
Numa entrega de aves, conheci um colega muito simpático e cuidadoso com as aves. No entanto, cheguei a me assustar com algumas coisas: o criatório dele é um galpão dividido em dois, sendo uma parte só gaiolas de calopsitas e outro apenas viveiros de filhotes. Na parte de viveiro ele deixou telhas transparentes, na outra parte não. O que ocorre é que ele tem gaiolas do chão até o teto (sim, no chão mesmo). As gaiolas do chão ficam literalmente no escuro, algo a ser observado com relação a maus tratos até. Eu tomei um susto ao sentar numa cadeira e uma ave se debater ao meu lado, pois estava tão escuro que eu não sabia que existia uma gaiola cheia ali. O criador tem que ter consciência de que está lidando com seres vivos. Pessoal, não é quantidade que te faz um grande criador. As aves precisam de bem-estar.
Um bom criatório tem que ser arejado e planejado para ter um limite de aves. Não faça nenhum investimento em aves se não tem para onde crescer ou se não tem como dar a mesma qualidade de vida das suas atuais para a ave que quer comprar. Isso só te faz um criador ruim, um acumulador.
As aves precisam de sol, algumas de chuva, todas de local limpo e arejado. Repense suas decisões. Orgulhe-se do que faz pelos animais. Tenha a melhor criação de psitacídeos
E sobre correntes de ar?
Eu mesmo sou obrigado a dizer que não tenho opinião formada sobre isso, pois 99% dos especialistas falam que temos que evitar correntes de ar no seu criatório. Mas e as criações ao ar livre? Já viram criação de aves no meio da mata? Já viram criação de ring Neck em viveiros externos ou gaiolas cobertas apenas com meia telha e totalmente expostas a chuva, sol… Eu já vi “ao vivo” ou em vídeos de youtube e digo: funciona até melhor (perdoem-me os que discordam).
Então, quem souber a relação com correntes de ar e criação de psitacídeos, fala lá nos comentários o que é bom e o que é ruim. Vamos entender melhor isso juntos.
Você conhece suas aves?
Nem sempre um problema é um problema. Nem sempre uma ave parada demais, quieta no canto ou no fundo da gaiola é um problema. Na verdade, nem sempre o criador conhece a forma que a espécie se comporta e simplesmente compra porque vende fácil a espécie.
Quantos criadores que iniciaram no Ring Neck e só depois descobriram que eram, na verdade, apaixonados por Roselas? Eu conheço uns dois e sou quase um desses (sou um caso a ser estudado, pois sou apaixonado pelos Red Rumpeds e não os troco por nada).
Além disso, antes de criar qualquer espécie, já verificou se sua vizinhança vai lidar de boa com o barulho que, por ventura, será gerado de sua casa? Pois é… tem muito condomínio por aí dando multa em criador por conta de barulho. Por esse motivo, conhecer a espécie também é uma vantagem competitiva.
No plantel, temos fêmeas boas de criar filhotes, fêmeas que comem ovos, casais que comem 20% do peso e casais que comem 10… existem muitas diferenças entre as aves. Até a posição de uma gaiola interfere no comportamento de aves. Eu tenho um exemplo: no meu viveiro de criação, deixo alguns red rumpeds que vou utilizar na temporada seguinte. Alguns casais se montam aleatoriamente e nem sempre são a combinação ideal.
Em 2024 criei aves que faria de reprodutores e soltei todas lá. Em 2025 comecei a separar algumas que já estavam formando casais com outros indivíduos. O que ocorreu: mesmo após três meses, casais não deram certo porque continuaram a ver seus antigos pares na voadeira e, mesmo distantes fisicamente, ainda tinham laços. Fiz um teste: soltei um casal no viveiro para colocar outro que estava pronto para reproduzir. O resultado foi que as aves imediatamente voltaram a ser casais com os antigos pares e no mesmo dia tinha macho subindo em fêmea. Minha decisão: na próxima temporada, mudar de posição e colocar algumas contenções visuais.
Tudo isso se traduz em uma coisa: só sairemos da média quando conhecermos nossas aves. Ter uma criação de psitacídeos nem sempre é só juntar 3 gaiolas numa garagem.
Mas e por que sair da média? Ora, o mercado de aves é competitivo como qualquer outro e o detalhe vai fazer a diferença. É inegável que um criador que faz boas matrizes, que tem manejo sanitário, que é reconhecido pelo cuidado com o plantel e que faz seu nome de maneira limpa sairá na frente. Pense nisso.
Você está preparado para mudanças?
E aqui eu não falo em mudanças de cidade, mas mudanças de pensamento. Pois não é apenas conhecendo tudo que falei acima que vai mudar sua criação. É preciso ser capaz de agir, de mudar, de sair da zona de conforto.
Quem está disposto a diminuir 20% do plantel para tentar otimizar uma criação e ter 5 a 10% a mais de filhotes por postura (o que seria melhor comercialmente que ter a criação com todos os casais anteriores)? Qual criador pretende montar um caderno de anotações para registrar semanalmente o que ocorreu na criação, no clima, na temperatura da cidade e levar essas informações para a tomada de decisão do mês seguinte? Quem vai utilizar dados de clima para segurar a ansiedade e só colocar ninhos quando clima e comportamento das aves estejam ideais? Quem vai deixar de dar sementes por ser mais barato?
São paradigmas que muitos não estão dispostos a aceitar e, talvez, essa seja uma das obrigações desse portal de conhecimento: mostrar que para evoluir é preciso consciência e fazer o que tem que ser feito. Ter uma criação de psitacídeos ideal nem sempre é fácil pra muitos. Todo mundo quer ter muitas e boas aves, mas nem sempre é a realidade de alguns. Então, que tenhamos poucas, mas que sejam as melhores e mais bem tratadas. Que façamos da nossa criação uma empresa altamente eficiente em custos e em saúde. As aves são, acima de tudo, seres que merecem qualidade de vida.
Sobre aspectos econômicos do plantel, quem quiser um conteúdo específico e aprofundado nos aspectos de custos e controle, manda abaixo nos comentários.




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