Introdução

Amado por muitos, negligenciado por outros e admirado por todos, o Red Rumped é uma espécie incrível. De comportamento ativo, reprodução facilitada e mutações diversas, é a ave de entrada ideal para a maioria dos criadores. Nesse artigo, falaremos um pouco da ave que é, sem dúvidas, a minha paixão.

red rumped parakeet

Origem e Distribuição

O Red Rumped é um psitacídeo nativo da Austrália, onde se distribui principalmente nas regiões sudeste e leste, abrangendo áreas dos estados de Nova Gales do Sul, Vitória e parte do sul de Queensland. Habita ambientes abertos e semiáridos, como:

  • Savanas e estepes com gramíneas abundantes.
  • Clareiras de eucaliptos e bosques ralos.
  • Áreas agrícolas e margens de rios.

É uma espécie que se adaptou bem a ambientes modificados pelo homem, sendo observada em plantações de sorgo e milho, gramados urbanos e até em parques. Essa versatilidade explica sua abundância na natureza e sua facilidade de adaptação em cativeiro.

Segundo o IUCN Red List, o Red Rumped é classificado como “Least Concern” (pouco preocupante), com populações estáveis. No entanto, a pressão de captura ilegal em alguns países, somada à perda de habitat, exige monitoramento constante.


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Domesticação e Popularidade

O Red Rumped foi introduzido na Europa por volta de 1870, sendo rapidamente aceito por criadores devido a três pontos-chave:

  1. Estética diferenciada – cores vivas e dimorfismo sexual evidente.
  2. Rusticidade – tolera climas temperados, desde que protegido de frios extremos.
  3. Reprodução confiável – mesmo em cativeiro, mantém alta taxa de fertilidade.

Hoje, é comum em aviários da Europa, América do Sul e Ásia, muitas vezes com linhagens selecionadas para cores específicas. Criadores australianos defendem a manutenção da variedade silvestre, por questões de preservação genética, enquanto no resto do mundo, são populares mutações como azul, laranja, canela, lutino e opalino, arlequim, cinza etc.


Fisiologia e Morfologia

O Red Rumped mede em média 26–28 cm de comprimento e pesa 55–80 g. Apresenta asa longa e cauda afilada, características que lhe conferem grande agilidade no voo.

  • Machos: plumagem verde intensa, peito azulado, cabeça escura e a inconfundível mancha vermelha brilhante no dorso (daí seu nome, pois red-rumped significa “dorso vermelho”, enfatizando a região vermelha do uropígio da ave)
  • Fêmeas: tons esverdeados discretos, ausência do vermelho intenso, coloração mais homogênea.

A espécie pode viver entre 10 e 15 anos em cativeiro, havendo registros de indivíduos ultrapassando 18 anos sob manejo adequado.

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Comportamento e Ecologia

Na natureza, o Red Rumped vive em bandos de 10 a 30 indivíduos, podendo formar grupos maiores em áreas de abundância alimentar. É diurno, gregário e ativo, mas menos ruidoso que outros psitacídeos. Seus chamados são agudos, mas não excessivamente estridentes. Uma importante característica é que essa ave consegue imitar o canto de outras aves das proximidades. Canários-da-terra, bem-te-vi, sanhaços etc. são aves nativas que têm seu canto facilmente imitado pelos Red rumpeds.

Comportamentos observados:

  • Forrageio no solo: na natureza, passa grande parte do dia buscando sementes caídas. Em cativeiro é comum encontra-los no forro das gaiolas recuperando sementes que caíram dos potes.
  • Sociabilidade: em cativeiro, pode conviver em viveiros coletivos fora da época de reprodução, mas com ressalvas, por exigirem viveiros de bom tamanho, já que as brigas podem ser constantes e perigosas.
  • Territorialidade reprodutiva: casais tornam-se agressivos quando nidificando, especialmente os machos.

Estudos etológicos mostram que o Red Rumped tem uma hierarquia social simples, com machos dominantes escolhendo locais de alimentação primeiro. Nas criações esse comportamento é muito visto em viveiros coletivos, quando os machos principais chegam primeiro nos potes de alimentação e só depois as outras aves conseguem se aproximar. Mesmo assim, brigas não são incomuns.


Alimentação

A dieta natural é composta por gramíneas nativas, sementes de ervas, frutos e flores. Estudos de campo confirmam que até 70% da dieta é baseada em gramíneas como Panicum e Sorghum.

Em cativeiro, a dieta deve reproduzir essa diversidade, mas incorporar alimentos enriquecidos:

  • Mistura de sementes: painço, alpiste, aveia descascada, trigo sarraceno. Girassol deve ser fornecido apenas em pequenas quantidades.
  • Ração extrusada: melhora o equilíbrio nutricional, reduzindo obesidade e deficiências.
  • Verduras frescas: couve, espinafre, rúcula, almeirão.
  • Legumes: cenoura ralada, beterraba, abóbora.
  • Frutas: maçã, pera, sempre em moderação.
  • Proteína suplementar: ovo cozido ou farinhada proteica, especialmente na fase de reprodução (metodologia muito utilizada na Europa, mas que restringe-se ao uso de uma farinhada reprodutiva aqui no Brasil)
  • Cálcio: indispensável, fornecido em osso de siba, blocos minerais ou pó de cálcio.

A utilização de sementes ainda é um dilema: por um lado, criadores ainda utilizam sementes 100% do tempo, outros fazem isso com a ração. Em minha criação, o manejo alimentar é composto de 50% semente e 50% ração, além de vegetais à vontade durante a semana. Entendo como sendo a equação mínima da relação semente/ração, mas acredito que pode ser modificada, desde que não suprima nem um nem outro, pois tanto a semente quanto a extrusada são fundamentais e a depender da época do ano, são a diferença entre o sucesso e o fracasso reprodutivo.

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Reprodução

A espécie é prolífica e considerada uma das mais fáceis de reproduzir em cativeiro.

  • Idade reprodutiva: 10–12 meses.
  • Ciclo reprodutivo: primavera e verão, podendo ocorrer até 3 posturas por temporada em cativeiro. O ideal é que esse número seja de 2 a 3 posturas, a fim de não prejudicar muito a saúde da ave.
  • Ninhos: caixas de madeira de 25 x 25 x 30 cm, com entrada de 6–7 cm.
  • Postura: 4 a 6 ovos.
  • Incubação: realizada exclusivamente pela fêmea, por 19–20 dias.
  • Nascimento: filhotes nascem cegos e nus, alimentados pelos pais com papinha regurgitada.
  • Anilhamento: recomendado entre 8 e 10 dias.
  • Emplumação: completada em 30–35 dias.
  • Independência: entre 45 e 60 dias de vida.

Criadores experientes recomendam manter apenas um casal por recinto durante a reprodução, evitando agressões. A bigamia ou a criação em colônia ainda são atividades pouco realizadas, porém, trazem resultados, desde que bem monitoradas.


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Manejo em Cativeiro

O Red Rumped necessita de espaço para manter seu comportamento natural de voo.

  • Gaiolas: mínimo de 1 m de comprimento por casal.
  • Poleiros: variados e de diferentes espessuras, preferencialmente de galhos naturais. A diferença de espessura de poleiro é importante para qualquer ave, por incentivar a “pegada” da pata do animal em diferentes ângulos durante o dia, favorecendo o exercício físico e os instintos naturais. O ideal seria a troca constante dos poleiros, pelo menos uma a duas vezes por ano.
  • Higiene: limpeza regular de bandejas, comedouros e bebedouros para prevenir doenças. Como é uma ave que constantemente tenta recuperar sementes que caem no forro da gaiola, esse espaço deve sempre estar o mais limpo possível.
  • Enriquecimento ambiental: ramos frescos de eucalipto, bambu ou galhos diversos para desgaste do bico e estímulo comportamental.
  • Exposição solar: fundamental para síntese de vitamina D3, prevenindo hipocalcemia.

Características da Criação

  • Rusticidade: suportam bem diferentes climas, desde que abrigados de vento e frio extremo. Atentar para correntes de ar gelado em algumas regiões brasileiras.
  • Reprodução regular: casais compatíveis produzem bem, sem necessidade de indução artificial. No entanto, alguns exemplares não se adaptam bem à troca de casais, podendo nunca reproduzir com o novo parceiro, principalmente se o antigo estiver no mesmo ambiente e visualmente próximo.
  • Variedade genética: é um desafio, pois muitos criadores realizam sucessivas reproduções de indivíduos da mesma família, gerando aves com menos vigor e porte em muitos os casos.
  • Mutação vs. natural: enquanto mutações atraem mercado, a forma selvagem (green/red rump) é importante para a manutenção da espécie. No entanto, é a quantidade de mutações e combinações que tanto atraem criadores. Rubinos, laranjas, verdes-cinzas, arlequins dominantes, opalinos etc. são as principais mutações trabalhadas hoje em dia.

Mercado

Talvez seja o ponto mais interessante a se discutir. Pois existe, hoje, um grande dilema na criação dessa espécie: o Red Rumped desvalorizou? Por quê?

 Para responder esse questionamento, temos que entender algumas questões:

  1. É uma ave que teve seu auge concomitante ao início das grandes criações de roselas e ring necks, porém, sua reprodução facilitada e precocidade fizeram com que rapidamente fosse muito expandida pelo país e em pouco mais de 10 anos os valores caíram significativamente;
  2. O boom da criação de Ring Neck apagou um pouco o brilho de algumas espécies e essa foi uma delas: criar ring Neck virou prioridade em praticamente todo lugar, o que fez com que o mercado diminuísse o interesse;
  3. A falta de conhecimento de cruzamentos e genética ocasiona acasalamentos e reprodução muito ruim, trazendo indivíduos sem padrão e sem valor agregado relevante, fazendo com que os criadores tenham cada vez menos interesse

Por outro lado, ainda existem muito criadores que estudam e investem em plantéis de alto padrão e qualidade nível europeu. Isso permite que ainda existam trabalhos de seleção genética que trazem alto valor agregado a essas aves. Esse é um dos motivos pelos quais muitos acreditam que o mercado de Red Rumped vai evoluir, principalmente porque aves de porte e de coloração adequada estão cada vez mais difíceis, e quem tiver indivíduos de excelência, continuará a ter resultados significativos.

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Considerações Finais

O Red Rumped (Psephotus haematonotus) é uma espécie que combina beleza, rusticidade e capacidade reprodutiva, tornando-se ideal tanto para criadores iniciantes quanto para plantéis profissionais. Sua alimentação relativamente simples, aliada à facilidade de reprodução, garante que seja uma das aves mais acessíveis do gênero Psephotus.

Apesar de menos popular que o periquito-australiano ou a calopsita, vem ganhando espaço em criações pela sua estética marcante e pela possibilidade de trabalhar mutações em programas de seleção.

Com manejo adequado, aviários limpos, dieta variada e atenção à genética, o Red Rumped pode ser não apenas uma ave ornamental, mas também um investimento sólido em avicultura de psitacídeos.

No entanto, o desafio de se criar essa espécie vai além das questões de manejo, pois é um mercado que requer qualidade e entendimento de que só haverá crescimento de bons criadores quando voltarmos a ver a espécie como importante na criação.

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