Introdução
A criação de psitacídeos no Brasil requer planejamento criterioso de manejo, nutrição, ambiente e do ciclo reprodutivo. Um dos fatores que pode influenciar fortemente o sucesso reprodutivo – tanto na natureza quanto em cativeiro – é o regime climático da região, especialmente quando ocorrem anomalias como o fenômeno La Niña. No Brasil, dados recentes indicam que o evento La Niña tende a se manifestar no período 2025/26.
Para criadores de psitacídeos, entender como esta oscilação climática afeta precipitação, temperatura, umidade e estações reprodutivas é essencial para adequar o manejo e reduzir riscos (ex.: falha de postura, mortalidade de filhotes, alimentação deficiente).
Este artigo visa oferecer uma visão técnica e atualizada sobre: o que é La Niña; seus efeitos climáticos no Brasil, por região; previsões específicas para 2025/26; e como estes fatores se relacionam com a reprodução de psitacídeos – com recomendações práticas para criadores.

O que é o fenômeno La Niña
O fenômeno La Niña é a fase fria da oscilação El Niño — caracteriza-se por anomalias negativas da temperatura da superfície do oceano Pacífico equatorial central e oriental, e por alterações correspondentes na circulação atmosférica.
Durante La Niña:
- Os ventos alísios (ventos de leste para oeste no Pacífico equatorial) tendem a se intensificar, ajudando a distribuir águas mais frias para a superfície.
- No Brasil, os impactos se manifestam por alterações no padrão de chuvas, temperaturas e estações — com forte variabilidade regional. Por exemplo: Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) desloca-se, frentes frias alteram trajetória etc.
Vale destacar que a intensidade, duração e manifestação regional de La Niña variam muito de evento para evento.
Para fins de manejo de aves, essas alterações climáticas implicam mudanças nos regimes de chuvas, disponibilidade hídrica, temperatura ambiente, nutrição (via alimento natural ou forrageamento), e podem deslocar ou encurtar a época ótima de reprodução.

Impactos regionais no Brasil
A seguir, aborda-se de forma resumida por região do Brasil como La Niña tipicamente interfere no clima — com foco em efeitos que podem repercutir para a criação e reprodução de aves.
Região Norte (Amazônia e arredores)
- Em muitos eventos de La Niña observa-se chuvas acima da média especialmente na porção norte ou leste da Amazônia, com enchentes ou aumento da umidade.
- Isso significa, para criadores de aves em regiões dessa faixa, possibilidade de ambiente mais úmido, sensação de alimento natural mais abundante, antecipação de temporada — mas também risco de aumento de umidade no viveiro, proliferação de fungos, doenças respiratórias ou de plumas.
Região Nordeste (semiárido, litoral)
- Em La Niña, há tendência de chuvas acima da média no litoral Nordeste (por exemplo estados do litoral da Bahia, Sergipe, Alagoas) e algumas porções da Zona da Mata ou planícies costeiras.
- Por outro lado, em partes do interior semiárido pode haver menos impacto ou até risco de estiagem dependendo da topografia e padrões locais.
- Para a criação de psitacídeos nessa região, isso pode implicar em um início precoce da temporada ou até uma irregularidade no “aprontar” de machos e fêmeas, necessitando de maior atenção do criador e observação.
Região Centro-Oeste
- Os efeitos de La Niña nessa região são mais variáveis — algumas fontes apontam tendência de estiagem moderada ou chuvas menores que a média.
- A ave passará mais tempo com a sensação de escassez, exigindo do criador um detalhado controle de alimentação, além de tentar manter os cronogramas de reprodução conforme a habitualidade.
- Em instalações de criação de psitacídeos, deve-se atentar para condições de secagem, ventilação, proteção contra calor excessivo ou seca prolongada.
Região Sudeste
- O padrão é menos definido: algumas fontes indicam “nenhum padrão característico de mudança nas chuvas” para La Niña, ou pequenas variações.
- Ainda assim, alterações de temperatura ou de micro-clima (ex: mudança da estação de frentes frias) podem ocorrer.
- Para o criador, atenção especial em aviários: mudanças de estação, frio mais acentuado ou mesmo chuvas fora de época podem afetar reprodução, incubação e crescimento de filhotes.
- Friagens e semanas com pico de calor extremo são possíveis. Proteger a criação desses efeitos é fundamental.
Região Sul
- Nesta região uma das manifestações mais clássicas: em La Niña, chuvas abaixo da média e/ou estiagens, especialmente no inverno.
- Temperaturas mais baixas que a média também podem ocorrer.
- Para a criação de psitacídeos, o frio ou menores chuvas podem levar a sensação de menor disponibilidade de alimentos naturais e potencial atraso na reprodução.

Previsões para La Niña 2025/26 no Brasil
As previsões do La Niña 2025/26 indicam que o fenômeno está em desenvolvimento, ainda que com incertezas quanto à sua intensidade e duração. Segundo fonte do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) divulgada em fevereiro de 2025:
- O aquecimento do Atlântico Tropical pode favorecer chuvas no Norte do Brasil, via deslocamento da ZCIT para o sul.
- A indicação é de que a La Niña tenderia a se manifestar, porém talvez de forma “enfraquecida” ou com curta duração.
- A primavera de 2025 no Brasil já dava sinais de ser afetada por anomalias de chuva e estação.
Com base nisso, os criadores de psitacídeos devem se preparar para:
- Possibilidade de chuvas acima da média no Norte e Nordeste
- Possibilidade de estiagem ou chuvas abaixo da média no Sul
- Incerteza sobre o Sudeste e Centro-Oeste
- Em cativeiro, antecipar ou ajustar calendário reprodutivo (ver próximo tópico) de modo a manejar a reprodução em janela apropriada, minimizar falhas, adaptar-se à variação do clima.
Relação entre La Niña e reprodução dos psitacídeos
Fisiologia e ciclo reprodutivo de aves
Para psitacídeos e aves em geral, a reprodução envolve uma série de fases: estimulação sexual (fotoperíodo, temperatura, estímulos ambientais), formação de prole, postura, incubação, criação dos filhotes e independência. Em regiões tropicais, os padrões são menos rígidos do que em regiões temperadas.
Há no Brasil estudos que mostram que muitas espécies tropicais não têm estação de reprodução tão curta ou tão restrita quanto espécies de latitude mais elevada.
Além disso, fatores ambientais como disponibilidade de alimento, temperatura, umidade, precipitação influenciam fortemente taxas de reprodução, tamanho de ninhadas, sucesso de incubação, sobrevivência de filhotes. Por exemplo: em ecossistemas semiáridos brasileiras, foi observado que aves “comumente usam a precipitação como um sinal ambiental confiável para ajustar o início da atividade reprodutiva”.
Em psitacídeos em cativeiro, embora o ambiente seja controlado, fatores externos como a estação reprodutiva natural da espécie, estímulos de luz, temperatura e nutrição ainda são fundamentais (há publicações brasileiras compiladas que tratam da reprodução de aves silvestres e de cativeiro).
Como La Niña pode interferir
Dado que La Niña altera padrões de chuva, umidade, temperatura e estações, pode interferir nos seguintes aspectos da reprodução natural de psitacídeos:
- Disponibilidade de alimento/nutrientes naturais: Em regiões onde La Niña favorece chuvas, o alimento natural (frutos, sementes, insetos) pode aumentar — o que beneficia aves silvestres e pode estimular sensorialmente as aves em cativeiro.
- Condições ambientais para postura e incubação: Chuvas intensas ou aumento de umidade podem elevação de patógenos, mofo, ventilação insuficiente no aviário, o que pode elevar mortalidade de embriões ou filhotes. Em climas mais secos, ventilação excessiva, calor e desidratação podem prejudicar postura ou condicionamento das fêmeas.
- Sincronização reprodutiva: A reprodução de aves tropicais pode estar sincronizada com estação chuvosa ou alimentos abundantes; se La Niña desloca ou altera essa estação, a janela ótima pode se adiantar ou atrasar, implicando falhas se o criador mantiver calendário fixo.
- Clima interno de aviário: Em cativeiro, controle de temperatura e umidade é mais fácil, mas ainda depende da estação e do ambiente externo. Em anos com fenômenos climáticos ativos, o criador deve se antecipar e se preparar para possíveis distorções no comportamento das aves.
- Sucesso na criação de filhotes e manejo pós-nascimento: Se o ambiente externo estiver mais adverso (chuva, frio, umidade), filhotes podem ter menor desempenho, maior mortalidade, crescimento mais lento. Em regimes de criação de psitacídeos, é preciso reforçar alimentação, monitorar peso, imunidade e comportamento.
Implicações práticas para criação de psitacídeos
Para que o criador de psitacídeos antecipe e ajuste-se ao cenário La Niña 2025/26, seguem recomendações práticas:
- Avaliar e reforçar infra-estrutura de ventilação, drenagem, cobertura de chuva e controle de umidade, conforme região.
- Na época da reprodução (dependendo da espécie), monitorar se a estação tradicional (por exemplo, primavera/ início do verão) está sendo alterada nas condições locais — ajustar início da reprodução ou adotar “janela proativa”.
- Em regiões com previsão de chuvas acima da média (ex: Norte, litoral Nordeste), antecipar o manejo pré-reprodução pode ser o diferencial entre o sucesso e o desempenho baixo da próxima temporada.
- Em regiões com previsão de estiagem ou chuvas abaixo da média (ex: Sul), manter a qualidade hídrica das aves, controle de calor, garantir que fêmeas e machos reprodutores estejam em condição ideal antes da reprodução (peso, condicionamento físico, nutrição).
- Verificar calendário de reprodução: se normalmente se inicia X mês, mas o clima mudou, pode ser mais seguro iniciar antes ou mais tarde, dependendo da espécie e condição local.
- Em cativeiro, manter nutrição de excelência (extrusada de alta qualidade, fontes de cálcio, vitaminas), apoio veterinário preventivo, limpeza reforçada em períodos de alta umidade ou chuva frequente para evitar problemas respiratórios ou de plumagem.
- Monitorar o desempenho reprodutivo (taxa de postura, fertilidade dos ovos, eclosão, crescimento de filhotes) e comparar com histórico de anos anteriores para detectar impacto climático e ajustar o manejo em tempo real.
Considerações sobre reprodução de psitacídeos no Brasil
Embora existam menos estudos específicos para psitacídeos no Brasil, compilados sobre reprodução de aves silvestres indicam que muitos fatores ambientais ainda são pouco conhecidos ou pouco monitorados. Portanto, o criador com melhor desempenho será aquele que adapta o manejo à realidade climática local, e não a que segue calendário fixo ignorando a oscilação climática.
Além disso, mudanças climáticas globais interagem com La Niña, de modo que os padrões históricos podem não se repetir exatamente — a variabilidade aumenta.
De forma resumida: La Niña pode representar tanto oportunidade como risco para a reprodução de psitacídeos — depende da região, da espécie, da infraestrutura e da prontidão do criador.
Conclusão
O fenômeno La Niña 2025/26 representa um alerta relevante para criadores de psitacídeos no Brasil, pois altera padrões de precipitação, umidade, temperatura e vegetação no diversos ambientes do país — fatores diretamente ligados à reprodução dessas aves, seja em cativeiro ou na natureza.
Com base no exposto:
- É fundamental que o criador de psitacídeos conheça a previsão climática local, adapte o calendário reprodutivo e reforce a infraestrutura, nutrição e controle ambiental.
- A reprodução das aves tropicais no Brasil, apesar de menos rígida do que nas zonas temperadas, ainda depende fortemente de estímulos ambientais, e oscilações como La Niña podem deslocar essas janelas ideais.
- Dividir por região o planejamento ajuda a mitigar impactos positivos ou negativos — no Norte/Nordeste, focar em controle de umidade e chuva; no Sul, focar em seca, frio ou menor chuva; no Centro-Oeste/Sudeste, manter monitoramento rígido.
- Dado que as mudanças climáticas globais alteram os padrões históricos, a diretriz “cronograma fixo de reprodução” pode não funcionar mais tão bem — a adaptabilidade se torna diferencial competitivo.
- Recomenda-se que criadores registrem sistematicamente indicadores: data de início de postura, número de ovos, taxa de eclosão, peso dos filhotes, mortalidade, e cruzem com dados meteorológicos locais (chuva, umidade, temperatura) para construir histórico próprio e ajustar futuro.
Em resumo: a preparação para La Niña, com base em boas práticas de manejo, pode aumentar a resiliência da reprodução de psitacídeos no Brasil e aproveitar eventuais janelas mais favoráveis, além de evitar perdas em eventos adversos.

Referências de pesquisa
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- EducAçãoClima. (2023). “Entenda os fenômenos El Niño e La Niña e seus impactos no Brasil.” Educa SC
- Safira Energia (2024). “Impactos de um La Niña enfraquecido: como o clima global e brasileiro serão afetados.” Blog Safira Energia –
- INMET. (2025). “Impactos do La Niña no clima brasileiro: o que esperar em 2025.” INMET
- Almeida et al. (2023). “Impactos dos eventos de El Niño e La Niña …” Repositório UFRN. Repositório UFRN
- Peixoto, J.V. (2023). “Particularidades da reprodução de aves silvestres.” RBRA. cbra.org.br
- Resende, O.A.; Almeida, J.; Jaenisch, F.R.F. (eds.). (2016). “Coletânea de artigos brasileiros sobre reprodução de aves.” EMBRAPA.




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