Introdução

Que a ração extrusada ou as farinhadas são produtos indispensáveis no nosso trato com as aves você já sabe. Esses produtos são ferramentas que não estão no mercado atoa, pois, uma correta nutrição, acompanhada de todo o arcabouço de manejo das criações é que traz a performance que todo criador espera.

Nesse texto, vamos falar sobre nutrição, como realmente calcular a quantidade e a qualidade dos produtos que devem ser usados e vou mostrar que o investimento em ração de alta qualidade traz um benefício acima do custo de aquisição.

alimentação de ring neck

Alimentar é diferente de nutrir

Alimentar significa oferecer energia imediata — muitas vezes calorias vazias — enquanto nutrir é garantir que os nutrientes essenciais (proteínas de qualidade, vitaminas, minerais, ácidos graxos essenciais) estejam presentes nas quantidades e proporções corretas para manter saúde, reprodução e comportamento natural. Dietas compostas majoritariamente por sementes tendem a ser ricas em gordura e pobres em cálcio, vitaminas hidrossolúveis e carotenoides (precursores da vitamina A), o que predispõe psitacídeos a obesidade, lipídios hepáticos (esteatose) e deficiência de vitamina A com alterações respiratórias e de mucosas.

Por outro lado, rações formuladas (extrusadas e farinhadas) foram desenvolvidas para fornecer um perfil nutricional balanceado que reduz a seleção alimentar e corrige deficiências comuns das misturas de sementes. Trabalhos comparativos indicam que dietas formuladas melhoram parâmetros reprodutivos e reduzem desperdício nutricional quando bem escolhidas; contudo, nem todas as rações são iguais — qualidade e formulação importam.

Na prática, “nutrir” significa oferecer uma base de ração formulada de qualidade, complementar com vegetais frescos, frutas com moderação, grãos integrais e sementes como petisco, além de acompanhar o estado corporal e exames veterinários periódicos. Essa abordagem reduz risco de doenças nutricionais e promove plumagem, função imunológica e longevidade adequadas. Em suma: alimentar (dar comida) é fácil — nutrir (dar o que o organismo precisa) exige escolha informada de alimentos com base em evidências.


A chegada das rações e o avanço da criação

As rações extrusadas e farinhadas representam um marco importante na nutrição moderna de psitacídeos. Enquanto, tradicionalmente, misturas de sementes eram a base alimentar de muitas aves em cativeiro, desde meados da década de 1980, começou-se a desenvolver uma transição para dietas formuladas, que oferecem um perfil nutricional muito mais equilibrado.

Historicamente, criadores europeus introduziram o chamado “eggfood” (farinhada composta, ocasionalmente à base de ovo, cereais, vitaminas e minerais) durante a fase de criação de filhotes, a fim de suprir aminoácidos essenciais, vitaminas e minerais que as sementes não forneciam em quantidade suficiente. Sempre vi esse termo em entrevistas de antigos criadores, porém, pesquisando melhor, entendi que era uma forma de alimentação semelhante às nossas farinhadas que usamos nessa fase. Posteriormente, o conceito evoluiu para dietas completas — rações extrusadas — que são projetadas para consumo diário de adultos ou de aves em crescimento, não apenas como suplementação.

Os benefícios dessas rações formuladas são múltiplos: elas garantem fornecimento equilibrado de proteínas de alta digestibilidade, lipídios controlados, vitaminas A, D, E, complexo B e minerais, ao mesmo tempo em que evitam a escolha seletiva que as aves fazem em dietas de sementes (geralmente pegam apenas as mais gordurosas). Estudos mostram que aves convertidas para dietas completas apresentam melhores indicadores nutricionais e menor risco de doenças relacionadas à nutrição do que aves que apenas comem sementes. E mesmo não sendo um dado científico, os resultados de praticamente todos os criadores que conheço são alinhados a essa afirmativa.

Na prática, oferecer uma ração de qualidade como base alimentar — complementada com vegetais frescos, frutas em moderação e sementes como petisco — permite que o criador “nutra” a ave, e não apenas a “alimente”. As farinhadas têm papel valioso em reprodução ou crescimento, enquanto a ração extrusada atua como fundamento diário sustentável. Em resumo, ao optar por rações formuladas e farinhadas de qualidade em substituição ou complementação de dietas à base de sementes, você promove a saúde, a plumagem, a vitalidade e a longevidade das aves.

alimentação de papagaio

Mas na natureza as aves não comem ração e estão bem. Por quê?

Esse é um dos argumentos mais comuns entre criadores e tutores iniciantes ou o oposto: o criador que tem mais décadas de criação que eu tenho de idade. “Se na natureza as aves se alimentam de sementes, por que oferecer rações industrializadas?”

 A resposta está no contexto ecológico e nutricional. Na natureza, psitacídeos têm acesso a uma diversidade de alimentos que vai muito além das sementes — eles consomem brotos, flores, frutos verdes e maduros, néctar, cascas, insetos e minerais. Essa variedade muda conforme a estação e a disponibilidade ambiental, permitindo que a ave selecione o que seu organismo necessita em determinado momento. Além disso, a ave está sempre em voos muito mais intensos que em cativeiro, sem contar as questões relacionadas ao estresse, pois as aves são presas e, por isso, estão sempre em alerta e em movimento, gerando uma demanda energética completamente diferente da exigência ex-situ.

Em contrapartida, há uma questão ainda mais peculiar: a reprodução. Pois em cativeiro a taxa de fertilidade, quantidade de ovos e de posturas são fatores muito diferentes da natureza. Aves como os Ring Neck reproduzem-se normalmente uma vez na natureza, com cerca de 3 a 4 filhotes no máximo. Em cativeiro, após a introdução de dietas balanceadas, esses índices evoluíram para o que vemos hoje.

Em cativeiro, a diversidade alimentar natural é impossível de reproduzir plenamente. Mesmo quando o criador oferece várias sementes e frutas, a limitação de espécies vegetais, o armazenamento prolongado e a perda de nutrientes tornam a dieta incompleta.

As rações extrusadas surgiram justamente para suprir essas lacunas. As de qualidade reproduzem, de forma balanceada e controlada, os nutrientes que as aves obteriam da diversidade natural. Além disso, evitam o comportamento seletivo típico dos psitacídeos, que escolhem apenas as sementes mais oleaginosas e energéticas, deixando de lado o restante.

Portanto, embora “na natureza não exista ração”, no cativeiro ela é a forma mais próxima de oferecer uma dieta completa e segura, garantindo que a ave receba diariamente todos os nutrientes necessários para manter metabolismo, imunidade e vitalidade em equilíbrio — algo que, em ambiente doméstico, apenas a alimentação natural jamais conseguiria assegurar.

ração para psitacídeos

Escolher ração é mais complexo do que se imagina

Primeiramente, vamos explicar como calcular a quantidade de ração consumida por uma ave diariamente: em média, estudos apresentam que essas aves comem entre 8 a 12% do seu peso, quando falamos de ração. Ou seja, se uma calopsita tem cerca de 90g, ela come cerca de 9g de ração por dia. Parece pouco, não é? Lembre-se que estamos falando de médias e que não estamos considerando perdas.

Obviamente, estamos falando de uma dieta exclusivamente montada com alimento seco, porém, eu sempre sou favorável à alimentação rica em vegetais, petiscos, sementes, etc. Eu sempre faço cálculos de deixar a alimentação seca (rações) entre 60 e 80% da minha dieta e o restante ser composto por vegetais e sementes.

Agora que falamos muito sobre os benefícios de uma ração balanceada, é só comprar uma ração indicada para minha espécie e tá tudo certo. Ou não?

Com certeza não é assim…

A escolha de uma ração precisa ser feita com base em alguns parâmetros que eu tenho como pilares para a montagem da nutrição balanceada:

  • As aves tomam sol direto, apenas luz indireta ou escuro o dia todo?
  • A gaiola permite voos ou a ave pula de um poleiro para o outro?
  • A reprodução é livre ou o criador retira ovos e filhotes para induzir o casal a continuar reproduzindo?
  • O criador vai utilizar suplementos?
  • A espécie necessita de sazonalidade alimentar para indução da reprodução?

São essas as bases que sempre utilizo quando penso em calcular a alimentação das espécies que criei e crio hoje. Porém, uma coisa eu não mencionei e acredito que pouca gente iniciaria um estudo desses sem colocar este parâmetro como importante nessa fase: qual o valor da ração?


Vamos discutir esse ponto e aqui eu vou tocar na ferida…

Eu já defendi, e continuarei, que o valor da ração está relacionado à qualidade. Parece que alguns criadores ainda acham que apenas o fato de estarem dando um produto com o nome de “ração extrusada” já é o suficiente. Infelizmente, ler apenas que a ração possui 25% de proteína não é suficiente para a escolha definitiva de uma marca.

Hoje em dia, grande parte dos colegas da criação escolhem pelo custo e não pelo conjunto de benefícios. Uma ração deve ter, pelo menos, uma série de ingredientes de qualidade superior, a fim de que o produto final forneça não apenas alimentação, mas nutrição completa.

Menos cortantes, sem aromatizantes artificiais, com insumos limpos, ingredientes livres de contaminações, adequada formulação, fidelidade do rótulo ao real valor nutricional do produto final. Essas são apenas algumas das características que temos que mencionar.

ração para psitacídeos

Uma ração mais cara sai mais barato que a mistura de sementes.

Até aqui, ficou muito claro que extrusadas, farinhadas, rações balanceadas são a melhor opção. E posso garantir que o custo não será maior que uma mistura simples de sementes. Vamos às contas?

Suponhamos que eu tenha dois casais de calopsitas. Um deles se alimentando com rações e o outro apenas com sementes. Vamos utilizar uma ração de calopsita que custa 60,00 o quilo (super premium de uma marca top 3 do Brasil). Um casal come cerca de 20g por dia de ração. Isso dá 7,3Kg por ano. Vamos arredondar para 7,5. Então, nosso custo por casal será de R$ 450,00.

Já o meu casal que come apenas semente, irá comer 30g de semente (a semente tem 30% de seu peso sendo casca e as aves não as comem). O custo médio de um quilo de mistura para calopsita é entre 12 e 15 reais. Isso dá cerca de 11kg de sementes no ano e um custo médio de R$150,00. São 300 reais de diferença! É três vezes mais caro alimentar as aves com ração! Obviamente, não fiz as contas considerando as perdas que existirão nas duas formas de alimentar, mas isso não mudará o resultado, pois é proporcional (pelo menos aqui sempre foi).

Considerando tudo isso, vamos agora montar nossa estratégia de reprodução: alguém duvida que o casal alimentado com ração terá resultados melhores que o outro? E quando fazemos essa amostragem num plantel de 10, 20, 30, 100 casais… se eu voltar para meu exemplo, posso acreditar que não seria difícil (ao fornecer uma dieta rica e balanceada) meu casal dar três posturas no ano, com baixíssimo ou nenhum índice de ovos brancos e uma média de 4 a 5 filhotes por postura. Será que eu conseguiria ter a mesma confiança no resultado do outro casal? E, se meu casal for um bochecha amarela, eu preciso ter apenas um filhote a mais que no trato com sementes que a conta, no mínimo, empata. Não vou nem comentar dos benefícios de longevidade, qualidade de filhotes, tamanho etc.

Caro leitor, a essa altura, você deve estar trazendo vários exemplos, vários “mas”, muitos “depende”… vai dizer que eu não considerei isso ou aquilo… e que nas calopsitas dá sim pra fazer um manejo só com semente que dá certo. Mas e nos Ring Necks? Nas complicadas cacatuas? Nas aves maiores como Araras e Papagaios? É notório que não. Você pode sim cria-los sem uma dieta adequada, mas não espere resultados além do básico.

criação de aves

O custo invisível da má nutrição. O que é isso?

Depois de tanto falar e defender as rações realmente premium que grandes e boas marcas produzem, tenho que atentar o leitor para o que já comentei anteriormente: não importa apenas ser ração, tem que ser de qualidade.

Hoje em dia é normal encontrarmos mais opções no mercado. De produtos com valor acessível e conteúdo duvidoso até pellets importados que custam até 10 vezes o valor de itens nacionais. A minha opinião para tanta diversidade é que o criador tem que entender seu manejo (já falamos sobre isso) e saber o que melhor encaixa na sua necessidade. Porém, tente evitar rações “fundo de quintal”. Se for para dar ração cheia de conservante e corante artificial ou com desbalanço nutricional que pode chegar a ser tóxico no longo prazo para a ave eu prefiro dar semente, pois, pelo menos, é natural.

Em todas as áreas do nosso cotidiano, o barato sai caro. Com as aves isso não vai ser diferente.

E sempre faça as contas pensando no checklist que eu apresentei no exemplo das calopsitas:

  • Quantos casais eu tenho?
  • Qual a diferença entre o custo anual da ração A e da ração B?
  • Qual o benefício que eu tenho em escolher uma em detrimento à outra?
  • Qual o resultado esperado fazendo a troca por uma ração de melhor qualidade
  • Quanto de aumento de faturamento eu preciso para ser melhor financeiramente?
  • No balanço anual, vai sobrar mais? (mesmo não sobrando, vai haver uma melhora na qualidade de vida da ave e no longo prazo você perceberá)
  • Minha expectativa de melhora está dentro de uma realidade plausível?

Entendendo essas possibilidades você terá mais tranquilidade em aperfeiçoar seu plantel, fornecendo produtos de mais qualidade para as aves e para a reprodução e, consequentemente, para o faturamento.

criação de aves

Conclusão

Quando colocamos tudo na balança, fica claro que o valor real de uma boa ração vai muito além do preço por quilo. Ela representa saúde, desempenho e tranquilidade dentro do criatório. A ave bem nutrida responde melhor na reprodução, mantém plumagem de qualidade, reduz riscos de doenças e entrega resultados consistentes ao longo do tempo — algo que nenhuma economia em alimento barato é capaz de compensar.

A ração de qualidade é investimento, não custo. É o tipo de escolha que se paga com filhotes mais fortes, casais mais férteis e longevidade maior do plantel. Nutrir corretamente é respeitar o ciclo de vida das aves e entender que cada grama oferecida tem um papel biológico essencial.

Por isso, ao avaliar o custo da alimentação, o criador precisa enxergar além da etiqueta do produto. O verdadeiro custo está em não nutrir bem — nas perdas reprodutivas, nos tratamentos veterinários, na baixa performance. Escolher bem a ração é escolher o futuro do seu plantel.

No fim das contas, a melhor economia é aquela que gera resultado. E, quando o assunto é nutrição de psitacídeos, o resultado só vem de uma base sólida: ração de qualidade, manejo correto e olhar atento de quem entende que alimentar é apenas o começo — nutrir é o que faz toda a diferença.

ração de calopsita


Uma resposta para “O custo invisível da ração que você nem imagina que existe”

  1. Avatar de Edjanio dos santos
    Edjanio dos santos

    Excelente conteúdo obrigado pelas informações

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