O choco é um dos momentos mais marcantes no ciclo de reprodução de psitacídeos. Em aves como calopsitas, periquitos, ring necks, araras e demais espécies, o comportamento de incubar ovos representa não apenas um instinto natural, mas também um complexo processo regulado por hormônios, estímulos ambientais e condições sociais.
Por isso, para o criador compreender o que desencadeia e sustenta esse comportamento é fundamental conhecer os detalhes apresentados aqui. Afinal, o choco determina a viabilidade dos embriões e influencia diretamente no sucesso da reprodução em cativeiro.

O que é o choco?
O termo “choco” se refere ao estado fisiológico e comportamental em que a fêmea (e em algumas espécies também o macho) permanece sobre os ovos para garantir o ambiente ideal ao desenvolvimento embrionário.
Esse estado não é apenas um comportamento instintivo; ele envolve ajustes endócrinos profundos que modificam o corpo e a mente da ave:
- Desenvolvimento da placa incubatória, uma área abdominal despida de penas, altamente vascularizada, que funciona como um “radiador natural”.
- Alteração comportamental, marcada pela tendência de passar longas horas no ninho, defender o território e reduzir a busca por alimento.
- Supressão temporária da ovulação, garantindo que a energia da ave seja direcionada à incubação, e não à produção de novos ovos.
No caso dos psitacídeos, o choco é um comportamento seletivo: nem sempre todas as fêmeas chocam de forma eficiente. Isso pode variar conforme a espécie, o histórico individual e as condições de manejo.
Quando inicia o choco?
Na maioria dos psitacídeos, o choco começa logo após a postura do primeiro ovo. Diferentemente de galinhas e pombas, que geralmente esperam a postura completa da ninhada, muitas fêmeas de psitacídeos já iniciam a incubação desde o início.
Esse detalhe tem implicações importantes:
- Eclosão assincrônica: como os ovos foram incubados em momentos diferentes, os filhotes podem nascer com dias de diferença. Isso resulta em ninhadas com tamanhos desiguais, o que pode influenciar a competição por alimento.
- Maior dedicação da fêmea ao ninho desde o início da postura, aumentando o esforço energético do ciclo.
O início do choco é regulado por feedbacks múltiplos:
- Estímulos táteis e visuais dos ovos sob o abdome.
- Escuridão e isolamento do ninho, que reforçam a sensação de segurança.
- Presença do macho, que muitas vezes participa alimentando a fêmea, garantindo que ela permaneça mais tempo no ninho.
Fatores fisiológicos que estimulam o início
O coração do processo de reprodução de psitacídeos e choco está no sistema endócrino. O hormônio prolactina, produzido pela hipófise anterior, é o principal responsável por desencadear e sustentar o comportamento incubatório.
Papel da prolactina
- Elevação após postura: estudos mostram que os níveis de prolactina aumentam logo após a postura e permanecem altos durante todo o período de incubação.
- Modulação comportamental: ela atua diretamente no sistema nervoso central, aumentando a tendência da fêmea a permanecer imóvel no ninho.
- Efeitos físicos: estimula a formação da placa incubatória e a redução da ovulação, redirecionando energia para o cuidado dos ovos.
Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas
O ciclo começa com a percepção do fotoperíodo (número de horas de luz no dia). Esse estímulo ativa o hipotálamo, que secreta hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH). Esse, por sua vez, estimula a hipófise a produzir LH e FSH, que promovem ovulação e postura. Depois que os ovos estão no ninho, ocorre uma mudança do eixo hormonal: LH e FSH caem, enquanto prolactina sobe.
Fatores complementares
- Contato físico com os ovos: reforça a liberação de prolactina, em um ciclo de retroalimentação positiva.
- Estímulo auditivo (em fases finais): batidas embrionárias no interior do ovo aumentam a motivação incubatória.
- Condições de bem-estar: aves em estresse crônico apresentam prolactina mais baixa, reduzindo a chance de choco.

Fatores que estimulam o fim do choco
O fim do choco é tão importante quanto seu início. Ele marca a transição para a fase parental, quando os cuidados passam a ser direcionados aos filhotes.
Principais fatores
- Eclosão dos ovos: os filhotes emitem sons característicos ainda dentro da casca, estimulando a ave a se preparar para a alimentação. Após a eclosão, os estímulos auditivos e visuais reduzem a prolactina e aumentam o comportamento de cuidado parental.
- Tempo de incubação ultrapassado: se os ovos não eclodem dentro do período esperado, há queda gradual da prolactina e abandono do ninho.
- Fatores ambientais: perturbações constantes, presença de predadores ou manipulação excessiva podem levar ao abandono precoce.
- Manejo humano inadequado: em cativeiro, banhos forçados, mudanças bruscas de temperatura ou retirada frequente dos ovos podem reduzir ou interromper o choco.
Alimentação no período
Na Reprodução de psitacídeos, o gasto energético da fêmea durante o choco é elevado. Embora reduza a movimentação e a ingestão de alimento, a manutenção da temperatura corporal e o estresse fisiológico aumentam a demanda por nutrientes.
Principais necessidades
- Energia: carboidratos e lipídios de boa qualidade para sustentar longos períodos de incubação.
- Proteínas: fundamentais para manter a musculatura e apoiar a produção de hormônios.
- Minerais (especialmente cálcio e fósforo): o cálcio é crucial não apenas para a postura, mas também para o metabolismo durante o choco.
- Vitaminas (A, D e complexo B): apoiam a imunidade e a regulação hormonal.
Estratégia prática
- Disponibilizar ração extrusada premium como base.
- Oferecer vegetais ricos em micronutrientes (cenoura, couve, brócolis).
- Fornecer sementes oleaginosas em pequenas quantidades, para aporte energético.
- Suplementar cálcio deve ser uma possibilidade a ser estudada.
Como o clima interfere no processo?
O clima atua como facilitador ou limitador do choco.
- Temperatura:
- Muito baixa → aumenta o gasto energético da fêmea, risco de abandono por fadiga.
- Muito alta → risco de superaquecimento dos ovos e desidratação da fêmea.
- Umidade:
- Baixa (< 45%) → ressecamento da membrana interna do ovo, dificultando a eclosão.
- Muito alta (> 70%) → proliferação de fungos e bactérias no ninho.
O criador deve avaliar a necessidade ou não de disponibilizar banho às aves durante esse período. Um ambiente de umidade alta e calor pode aumentar a perda de embriões por infecção de fungos, principalmente no início da incubação (os sintomas de “anel de sangue” podem estar associados à fungos e bactérias que conseguiram penetrar na clara).
Já em ambientes secos, manter a umidade dos ovos em níveis adequados pode somente ser conseguida com a oferta de banho, para que a fêmea carregue essa umidade para o ninho. Por isso, avaliar caso a caso é importante.
- Fotoperíodo: o aumento de horas de luz na primavera é um dos principais gatilhos reprodutivos naturais, inclusive para psitacídeos mantidos em cativeiro.
Criadores experientes regulam ambiente artificialmente, controlando luz, ventilação e até nebulização para simular as condições ideais da natureza.

Mudanças drásticas de clima e seus efeitos no choco
As aves em choco são muito sensíveis às variações bruscas de temperatura. Diferente de pequenas oscilações diárias, que podem ser compensadas pelo instinto incubatório e pela regulação térmica da placa incubatória, eventos extremos como frentes frias repentinas ou ondas de calor prolongadas podem comprometer o sucesso da incubação.
1. Queda brusca de temperatura (frentes frias)
- A fêmea precisa aumentar o tempo em contato direto com os ovos para manter a temperatura embrionária estável.
- Esse esforço extra eleva seu gasto energético e pode levar a perda de peso e cansaço precoce.
- Em casos de frio intenso, mesmo o contato direto pode não ser suficiente, resultando em hipotermia embrionária e maior taxa de mortalidade dos ovos.
- Filhotes que estão prestes a nascer podem ser os mais prejudicados, pois seu metabolismo ainda não consegue compensar quedas repentinas de calor.
2. Aumento extremo de temperatura (ondas de calor)
- O risco é inverso: os ovos podem sofrer superaquecimento, ultrapassando a faixa ideal de incubação (geralmente entre 36–38 °C para psitacídeos).
- O excesso de calor acelera o metabolismo embrionário, podendo causar malformações, mortalidade precoce ou até a morte embrionária súbita.
- A fêmea, ao sentir desconforto térmico, pode abandonar o ninho momentaneamente em busca de sombra ou água, expondo os ovos a oscilações críticas.
- Além disso, o calor favorece a desidratação da fêmea e aumenta a umidade dentro do ninho, criando um ambiente propício para proliferação de fungos.
3. Papel do criador diante das mudanças climáticas
- Em frentes frias: garantir isolamento térmico dos viveiros, proteger contra correntes de ar e, se necessário, fornecer aquecimento suplementar para algumas espécies como os hoodeds Psephotus dissimilis .
- Em ondas de calor: reforçar a ventilação natural, aumentar a disponibilidade de água fresca, instalar sombreamento adicional e até resfriadores evaporativos, sempre sem alterar drasticamente a umidade.
- Monitorar diariamente ovos e fêmeas, já que períodos de instabilidade climática podem ser decisivos para a viabilidade da ninhada.

Como o criador pode ajudar a manter o choco das fêmeas
O papel do criador não é forçar o processo, mas criar condições ideais para que o instinto natural se mantenha ativo.
Estratégias recomendadas
- Ninhos adequados: de madeira, bem higienizados, escuros e protegidos contra correntes de ar.
- Ambiente silencioso e seguro: o estresse é um dos maiores fatores de abandono.
- Presença do macho: garantir que ele esteja saudável e disposto a alimentar a fêmea.
- Suporte nutricional: manter oferta contínua de dieta equilibrada.
- Monitoramento cuidadoso: observar sinais de abandono, cansaço excessivo ou dificuldade no choco, sem manipular constantemente.
- Controle climático: evitar extremos de calor ou frio no viveiro.
Conclusão
O choco em psitacídeos é um fenômeno que vai muito além da simples permanência da fêmea no ninho. Ele resulta de uma interação complexa entre hormônios (principalmente prolactina), estímulos ambientais (fotoperíodo, temperatura, segurança) e condições sociais (presença do macho e dos ovos).
Para o criador responsável, conhecer esses mecanismos é essencial. Isso permite não apenas melhorar o sucesso reprodutivo, mas também assegurar o bem-estar da fêmea e dos filhotes.
Oferecer ambiente adequado, alimentação balanceada e reduzir fatores de estresse são ações que fazem toda a diferença no estímulo e na manutenção do choco. Em última análise, o respeito ao instinto natural das aves é a chave para uma criação saudável e produtiva.
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